IV - Emaranhados perdidos durante o processo de escrita
- Bernardo Mofe

- 21 de jun. de 2021
- 6 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2021
Normalmente eu odeio me comparar com certas personalidades, mesmo que elas sejam incríveis em quaisquer áreas. Sei lá, é como se eu não me sentisse totalmente representado, mesmo nas coisas que mais amo e música, obviamente, é uma delas.
Lembro de uma vez há uns anos em que eu estava com a banda no estúdio e o nosso baterista na época ter mencionado que o meu jeito de cantar, de postar minha voz e o meu tom o lembrava Renato Russo. Fiquei meio desconcertado, primeiramente com o fato de isso realmente ter sido um elogio e não como se eu o estivesse imitando ou algo do gênero, e por de certa forma não concordar, mesmo que fosse parecido (o que não sei responder). Oras, Renato é um artista gigante, um compositor incrível e dono de uma das capacidades performáticas mais emblemáticas que esse país tropical já viu. E eu? Oras, eu sou só eu. Significa que eu me ache ruim? Inferior? Talvez, mas acima de tudo, eu me acho eu. Mesmo que seja ruim para alguém ou para mim mesmo, só eu sei ser o que eu sou, seja em cima ou fora do palco. Não tenho medo de ser, enfrentar e só dessa forma de o fazer que eu consigo ser.
Às vezes, inclusive, é muito difícil performar a minha própria personalidade, esqueço o que sou. Na escrita, nunca consegui realmente me achar. Muito também por eu não ser um real leitor, o que é uma vergonha. A verdade é que se eu escrevo é por pura necessidade, não há como ser mais claro do que sou para a tela/folha em que escrevo. De certa forma é como se fosse o espelho o qual uso para verificar como estou antes de sair de casa, de ajeitar a camisa do botão que esqueci de fechar ou de ajustar o cabelo de uma gafe tosca, enfim.
Infelizmente, tenho que dizer que acho isso tudo, todo esse sentimento de se achar único e "só eu posso ser eu mesmo", meio arrogante. Afinal, não sou tanto assim. Há alguns momentos onde eu desisto do caráter não-leitor tão antigo meu e resolvo encarar folhas que não são minhas e passaram muito, muito longe de mim e aí que, às vezes, entro nas minhas próprias contradições e revisito a mim mesmo em anos que nem era nascido.
Ao folhear "On The Road", em vários momentos me vi Sal Paradise em suas saídas a pé para escrever sei lá quantas míseras páginas, nas mulheres que se pensou em ter um algo a mais, porém aquelas conversas que não levariam a lugar nenhum foram muito melhores do que o pretendido e levou sim a vários lugares, mentais. Me vi ao lembrar de Dean Moriarty tantas e tantas vezes, mas ao invés do rapaz galanteador de Denver, me lembrei do meu grande amigo ao qual divido a casa, do grande amigo ao qual não vejo há anos, mas tenho várias memórias na cabeça e nunca as esquecerei (espero), da namorada que nunca foi, mas poderia ter sido e acabou sendo uma amiga imprescindível daqueles dez anos atrás.
Eis que ponho-me a pensar em tudo. Assim como eles. Assim como todos os outros, os meus e os que poderiam ser. Penso nas cervejas quentes que estavam à mesa e que esquecemos que um último copo ainda estava ali dentro da lata guardadinhas, antes geladas. Aliás, a bebida é um negócio curioso. Completamente maléfico e ao mesmo tempo super agregador de egos e sentimentos felizes, que contempla e forma novos seres dentro de um único já existente, mesmo que eles não se revelem. Não à toa, vários desses cultuados por quaisquer motivos e serviços prestados, excedendo os crentes em sua maioria na generalização, foram encontrados e podem ser vistos ao redor do mundo contemplando e exercendo seus vários tipos de boemia disponíveis.
Fumos, fumaças, puxos e puxadas, encostadas, fungadas e muitos suores. Entre as sacudidas de cabelo por aí ao som dos mais distintos sons possíveis, encontram-se namorados, empresários falidos, falsos ricos, falsos pobres, dependentes de qualquer porra possível e eu também, um aspirante a escritor sem um puto além dos já guardados para o vício mais próximo a ser consumido. Entre umas latas de fumaça e alguns cigarros de cerveja, surge a oportunidade de um flerte e a partir daí, quem sabe, um encontro de línguas envoltas em outras substâncias desconhecidas. Desconhecidas sim, claro, afinal de contas, não sei quem é essa pessoa. Vamos com calma, mas calma lá também. Carnes e músculos. Meus, seus, de quem quer que seja.
Me afastei um pouco, tá muito abafado e tem suor escorrendo pelo meu olho e Jesus Cristo, como arde um bagulho tão bobo. Pego meu cigarro, levo a boca. É um cigarro horrível, diga-se de passagem, um gosto de vento terroso. Tipo quando um carro passa varado na direção contrária e te obriga a dar de cara com uma corrente de ar intempestivo, a qual o braço na frente não ajuda muito ao evitar a entrada de terra, barro, seja o que for, na boca. Mas tudo bem, não tem muito motivo para alardes, ao menos não é algo que não se esperava tanto. Tais erros são completamente coerentes a essa hora da noite e caso acabe se tornando um erro do qual se arrependa muito, uma dose daquela cachaça velha naquela garrafa empoeirada ajude a amenizar o mal estar sensorial remoto. Volto a me lembrar de Sal Paradise em uma das festas pirocas que ele relata em seu livro. A celebração por motivos que nem os próprios saberiam dizer se ainda estivessem vivos, aconteceu em uma taberna abandonada numa cidade a caminho de Chicago, seguindo o rumo da Rota 66. Essa cidade, segundo Sal, foi um reduto de artistas do ramo cinematográfico dos anos 20-30 (sei lá) e tinha até uma certa fama ao momento daquela noite. Os viajantes, cansados e atônitos à procura de qualquer coisa que os entorpecesse, pararam nessa tal cidadezinha e perceberam que acontecia algum evento, não me lembro bem se era a exibição de um filme ou uma ópera, talvez. Pensaram que ‘por que não pararmos por aqui e vemos se algo melhor não nos aguarda ao longo disso tudo?’. Dito e feito, Sal, Dean, Ed Dunkel e mais alguém que não tenho a mínima ideia de quem possa ser ficaram lá, estatelados na tal taverna abandonada, cheios de feno e poeira e uma garrafa de uísque perto do fim até que foram notados por quem no evento estava.
Resultado? O evento virou o que eles queriam que fosse. Ali. Engravatados, mauricinhos e dondocas cansados da formalidade do outro eventinho aventuraram-se para ver o que aqueles vagabundos tinham a oferecer. Tanto ofereceram que se tornaram os maiores cantantes daquela oportunidade, os maiores dançarinos, os maiores bagunceiros boêmios e indecentes cheios de tesão daquela noite naquele ambiente. Ao fim, todo tipo de pessoas se viam ali, acordando jogados ao chão daquele lugar bisonho. Uns pelados, outros não, mas generalizadas as dores de cabeça maçantes em cima de todos.
Retornei ao chão. Enquanto olhava para o céu acompanhando o caminho da fumaça até o infinito. Estou de volta e a caminho de outra bebida que me mantenha aqui, que nem é necessariamente onde eu queria ou pensei em estar. Ou era? Bom, a esse ponto não importa mais. Ao voltar pra civilização não tão civilizada quanto talvez a maioria quisesse que fosse, vi todas as palavras que me lembrei ter lido meses antes, agora relembradas pelo inconsciente do meu cigarro, nos rostos de todo mundo, no balcão melado, no karaokê que está sendo ligado, nos amigos, nas risadas, no maço perto do fim e de mais uma inevitável cerveja quente a vista que foi esquecida por alguém que nem se lembra ter esquecido alguma coisa sequer.
No final de tarde seguinte, ao acordar, vejo-me igualmente dolorido da cabeça e jogado ao chão de qualquer lugar, mesmo que esta seja a minha casa. Demorei a levantar, a perceber as coisas e assimilá-las. Quarenta minutos se passam e pelo menos um café adentra meu interior junto com as memórias e as falhas nelas. Talvez eu tenha algumas coisas parecidas com essas tais personalidades, as assimilações não são em vão. Nem serão. Bom dia, mesmo que seja quase noite.



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