II - Gonzo
- Bernardo Mofe

- 23 de jun. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2021
Hunter S. Thompson teve uma juventude, no mínimo, um pouco conturbada. Seu pai, um veterano da Primeira Guerra Mundial, era alcóolatra e faleceu quando seu filho tinha 15 anos de idade. Nascido em 1937 no estado de Kentucky, no sudeste do país, foi um adolescente problemático em meados dos anos 50 e obviamente foi muito influenciado pelo estilo de vida "bon vivanesco" da geração Beat. Apesar de já ter declarado não ser muito fã da maneira "romântica e metafórica" da qual escrevia Jack Kerouac, também o tinha como uma forte referência para se tornar o homem que virou e os hábitos que passou a ter ao longo dos anos. Tinha as armas. Hunter era um entusiasta da bala. Armas, armas, armas. Estados Unidos USA USA e blá blá blá. O jornalista tinha um apreço pela posse de armas, uma paixão mesmo, eu diria.

Hunter S. Thompson em 1977. Foto de Lynn Goldsmith.
Existem pouquíssimas coisas que conseguimos usar para descrever tão bem uma pessoa. Durante a apuração e pesquisa de tudo isso, acompanhei um bom número de produções que envolvessem o nome de Hunter S. Thompson, direta ou indiretamente. Reportagens, livros, contos, crônicas, colunas. Esporte, política, fofoca, legalização de drogas, chutar o saco de alguém enquanto fuma haxixe. Tudo isso em um texto. Às vezes, num simples período.
No dia 11 de abril de 1997, o apresentador estadunidense Conan O’Brien em seu programa Late Night, mencionou que há muito tempo queria que o pai do Gonzo o concedesse uma entrevista. Um pedido frequentemente negado. “Estúdio não”, o também comediante conta. Eis que O’Brien o encontra em uma fazenda em Upstate New York para, segundo o próprio Gonzo, “shoot guns and drink hard liquor”. Esta é uma daquelas pouquíssimas coisas ditas anteriormente.
Conan visits Hunter S. Thompson, 1997, NBC.
Tinham as motos, coisa que o velho Sal não lembro de ter visto falar muito sobre. Eram sempre os ônibus, os carros, os Dodges, o famoso Hudson, as caminhadas eternas, os ônibus e caminhonetes fétidas e malandramente dirigidas na maioria das vezes. Mais malandragem, mas no sentido produtividade por osmose. A questão das motos atribuía um ar a Hunter muito mais de compensação por tudo, pelo risco de vida e aí sim, o prazer por (quem sabe?) continuar vivendo depois de tudo o que se fez na estrada. Só você e uma carcaça menor que suas virilhas entre as pernas. Não haviam capacetes, nem limites de velocidades, nem diminuir na curva. Varado. Na pista.
Hunter S. Thompson night ride on a motorbike. Trecho do filme “Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson”
Ao assistir o documentário "Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson" (2008), o qual contém várias imagens do autor na ativa, nos lazeres, nos resmungos, hábitos, é quase impossível não relacionar a maneira com que vivia e tentava transparecer aparentemente aos outros como Neal Cassady/Dean Moriarty, tido como um dos mais famosos heróis da geração beat.
Após alguns anos fora dos Estados Unidos trabalhando tanto como freelancer para publicações diversas quanto para jornais locais, desde os esportes até ser correspondente do National Observer na América do Sul, Hunter Thompson teve em 1966 seu primeiro sucesso publicado: “Hell's Angels: The Strange and Terrible Saga of the Outlaw Motorcycle Gangs”. Enquanto morava em São Francisco, o ainda jovem jornalista passou um ano convivendo com a rebeldia da gangue motociclista dos Hells Angels, basicamente tornando-se um deles e, consequentemente, acompanhando-os a quaisquer besteiras e bizarrices que os cabruncos tinham na telha para fazer. O resultado foi um livro com uma carga sociológica e antropológica muito forte. Um retrato ideal de como aquele bando de machos gostava de agir e mostrar suas virilidades carcomidas de couros e tabacos sujos de fumaça de carburador. Como em entrevista concedida a Studs Terkel, radialista e historiador estadunidense, em 1967, um ano após a publicação de “Hell’s Angels”, Hunter explica os motivos que achou para decifrar as atitudes e ímpetos raivosos e humilhantes dos Angels para quem não era da laia deles. Um misto de sentimentos sobre não aceitação e descontar nos outros suas frustrações através da violência, do ódio e o famoso discurso normalmente usado por culpados de que “o sistema os fez assim”. O autor ainda reflete sobre como escrever sobre a gangue o ajudou a identificar seus próprios demônios.
Hunter S. Thompson on Outlaws.
O impacto do livro foi tão grande (e as revelações que o autor fez sobre os motoqueiros idem) que o próprio Hunter acabou sendo posto frente a frente com um dos Hell’s Angels num programa de TV, rodeado de uma grande platéia e um apresentador, para discutirem a veracidade dos fatos e palavras, diálogos expostos pelo escritor. Hunter usava um gravador e, após falar tudo o que queria colocar em palavras, redigia tudo sem nenhuma hesitação a mais nem a menos. Em uma dessas passagens, o autor menciona que, em uma das festanças regadas à cogumelos, ácidos e otras cositas más, mesmo paralisado junto de uma amiga pelo efeito de tudo o que já tinha feito e consumido, conseguiu enxergar, pelas sombras que as luzes e as barracas faziam, um estupro coletivo. E tinha certeza de que tinha sido aquilo, só podia ter sido aquilo. Pessoas como Carolyn Cassady, a já ex-mulher de Neal Cassady (ou melhor, Dean Moriarty), em pessoa frequentavam as mirabolâncias da gangue. Até mesmo Tom Wolfe, famoso jornalista identificado como um dos pioneiros do New Journalism, sabia dessas tramóias e, quem sabe, pode ter ido a alguns desses eventos. Os Hell’s Angels tinham uma certa fama nos anos 60. Com o auge dos The Beach Boys e o surf rock da Califórnia, uma boa gama da contracultura da época se concentrou no que aquela região andava fazendo. Passando pelos Rolling Stones, o novelista Ken Kesey, o poeta beatnik Allen Ginsberg e até mesmo os Beatles tinham um olho nos “anjos infernais” e outro em sabe se lá o que. Tinham moral esses caras. Os vrum-vrum, brrrrroc broruummm dos motores deviam ter algo a mais do que os barulhos que eles mesmos deviam resmungar. Mas voltando ao programa de TV, Hunter e um dos ‘Angels’ discutem sobre uma situação aparentemente rotineira no grupo que pode ter sido uma das causas para o autor ter sido “desligado” do grupo. O motoqueiro ao contar que um dos “anjos” agredia seu cachorro e sua esposa com uma pedra (nesse momento a platéia inteira gargalha ferozmente) afastado de onde ocorria uma das celebrações do grupo, até que num impulso, Hunter teria interferido afim de querer parar com aquela cena. Eis que o dono da jaqueta de couro em questão responde com desdém, zombando da preocupação alheia. “Se um homem resolve bater em seu cachorro e em sua mulher, isso é um assunto dos três envolvidos”, disse entre outras barbaridades.
Na ocasião, o escritor acabou sendo espancado pela gangue em consequência de seu ato. A relação entre os dois lados pode ter começado de forma amistosa, até mesmo pela afinidade por motos de ambos, mas só não terminou com morte porque um deles, que obviamente era o lado do jornalista, resolveu fugir e preservar um mínimo de sanidade naquele momento. O “debate” termina só com um dos lados contando sua versão. Depois de interrompido algumas vezes, quando começou a contar sua versão dos fatos, Thompson foi mais uma vez interrompido, desta vez pelo próprio apresentador dizendo que “a parte dele deveria ser resolvida de forma privada” já que o programa estava no fim. Bom, com vocês, uma amostra do ano de 1967 estadunidense.
Hunter S. Thompson meets a Hell Angel, 1967.



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