top of page

I - Vinheta

  • Foto do escritor: Bernardo Mofe
    Bernardo Mofe
  • 24 de jun. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 16 de ago. de 2021

Digamos que seja um pouco notável a semelhança na escrita do New Journalism com a geração beat norte-americana dos anos 40, 50. Foi assim que de certa forma cheguei até aqui. Talvez sejam ainda mais notáveis as similaridades do jornalismo gonzo do doidão Hunter S. Thompson e as crônicas particulares e viajandonas de Jack Kerouac e Neal Cassady em pouco mais de três anos em que os dois ousaram atravessar o país ao longo da famosa e tão mencionada Rota 66.

Em "On The Road", apesar de um certo pessimismo acerca do homem e da sociedade em geral, tida como perdida no consumismo e nas galhofas tradicionais e, para eles, cafonas da sociedade norte-americana pós guerra, o vívido ímpeto pelo livre-arbítrio e a liberdade hedonista são características marcantes, se não essenciais, da geração beat. Não por acaso logo adiante nas décadas que viriam, os hippies começaram a surgir com seus gritos embargados de fumaças ácidas de paz e amor e psicodelias sexuais. Kerouac tinha um certo instinto jornalístico. Pode-se dizer com muita propriedade que ao conhecer o seu tão sonhado Dean Moriarty, ou Neal Cassady se preferir, parte de um mundo não antes tão visitado se abriu para Jack, que, ao se tornar Sal Paradise, se viu apurando, reportando e redigindo as loucuras corriqueiras, as impessoalidades sociais e o mais puro desejo utópico do sonho americano.

Neal Cassady e Jack Kerouac durante uma de suas viagens. Foto de autor desconhecido. Talvez para ele, Dean seria a tal personificação desse sonho e cabia a Neal interpretá-lo como deveria. Um personagem cheio de imperfeições, formando o malandro boêmio, mulherengo e problemático cheio de versos decorados a fim de conseguir o que queria: sexo, dinheiro, carros, doses de uma bebida barata qualquer ou um maço de cigarros que duraria muito menos do que as mirabolâncias para consegui-lo. Dean Moriarty pode ser o principal protagonista de Jack Kerouac, além de si próprio, mas todos os que atravessaram seus caminhos têm bastantes motivos para terem estado ali e obviamente sido noticiados, mesmo que romanticamente, como tinha o hábito de escrever, em suas novelas contraculturais. Tal como Carlo Marx e Old Bull Lee, Allen Ginsberg e William S. Burroughs se mantiveram nas mentes de quem os acompanhou de alguma forma, seja por seus alter-egos criados ou por seus próprios romances.

Uma "mugshot" de Neal Cassady, detido em São Francisco, em setembro de 1958.

Pouco mais de uma década adentro da história Dean Moriarty já era um ícone para a juventude, mas Neal Cassady já tinha morrido no deserto do México. “On The Road” já era a bíblia dos beats, mas Kerouac também já estava em decadência em decorrência do alcoolismo e das amarguras entranhadas e evoluídas de uma fama tardia. Um jornalista cansado das formas e quadrados tradicionais da indústria (não só jornalística, mas literária), pôs-se a se aventurar pelos trilhos e multidões a fim de noticiar o que fosse possível ser posto em linhas e versos, mas que estava alí. Real. Voraz. Incrível.

Hunter S. Thompson se enchia de ácidos, cocaína, maconha, haxixe e álcool de todos os tipos e se atrevia a cobrir o que quer que sua cabeça ousasse traçar em suas folhas. Havia ali, assim como para Kerouac, Cassady e outros, a aspiração pelo grande romance. Pela história que contemplaria sua vida, sem necessariamente ser uma autobiografia. A história que aspiraria inspirações futuras, reflexões chave para a vida do americano na terra do sonho que pouco reflete as realidades turronas.

Os repórteres da época, com influência do Hemingway pós-primeira Grande Guerra, por exemplo, já se inspiravam para tal glória: reportar o interesse comum humano, suas falhas, vitórias e comodidades. Afinal de contas, vai que seu romance ganha importância tal a ponto de interessar fazerem um filme sobre? Aí talvez você já não precise se preocupar tanto com o aluguel e as contas de gás. A mídia jornalística mantinha seu espaço e notoriedade pelo informativo, mas os repórteres galgavam passos cada vez mais largos e é onde chegamos ao New Journalism, suas formas e contextos, e especificamente ao Gonzo.


Comentários


Não é mais possível comentar esta publicação. Contate o proprietário do site para mais informações.
Post: Blog2_Post
bottom of page