VI - Os contras dos cheios de prós
- Bernardo Mofe

- 19 de jun. de 2021
- 6 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2021
Autorizaram-se tanto a fazer tudo o que poderiam, pois eles simplesmente podiam. Ora bolas, afinal de contas estamos falando de norte americanos estadunidenses brancos de classe média durante as décadas de 40-70, falando do tão cultuado movimento beat. Se atualmente, mesmo com inúmeras provas bárbaras de um crime cruel, eles ainda conseguem transgredir a moral da justiça (brasileira, especificamente), nos anos que nos antecederam, então talvez nem tenha como mensurar o quão beneficiada essa raça foi. É curioso pensar que mesmo tendo certa sensibilidade acerca de assuntos como o uso de drogas e suas viagens interestelares ou a liberdade sexual como fatores providenciais para o alcance de uma felicidade quase “nirvanesca”, alguns desses mesmos sensíveis incompreendidos representassem ainda um discurso tão radicalmente conservador quantos às aventuras que ousaram se meter para balbuciá-las por aí.
Durante tal período da história, dos anos 40 aos 70, os Estados Unidos da América já eram o centro modelo de uma vida vendida e extremamente exposta onde fosse possível para que os miseráveis empregados pegadores de transportes públicos invejassem e quisessem ser invejados um dia no futuro, quem sabe. O ínicio, o meio e o fim da Segunda Guerra, a Guerra Fria, o apartheid e as fortes reivindicações dos movimentos sociais, a criação e a influência dos Panteras Negras, a chamada “segunda onda” do movimento feminista, a rebelião de Stonewall, os assassinatos de Martin Luther King, Malcolm X e John Kennedy, a guerra do Vietnã e etc. Foram inúmeros os acontecimentos políticos e sociais na época que obviamente movimentaram não somente o caráter comportamental e psicológico norte-americano, especificamente, quanto também a noção de representatividade que começa a borbulhar diante de uma revolta de uma parte popular amplamente massacrada pelo sistema durante décadas, séculos a uma parte dita “conservadora” que usa(va) e abusa(va) dos privilégios que eles mesmos criaram lá atrás desde que o mundo passou a ser entendido como mundo.
Ao iniciar esta pesquisa/reportagem/esboço do que possa vir a se tornar, mergulhei nos livros e nas passagens daqueles que viam nas mirabolâncias do inesperado, um escape vantajoso da realidade quadrada que os cercavam. Ok, tudo muito bom, tudo muito lindo, muita sensibilidade até alguns frequentes incômodos começarem a aflorar. Não por coincidência, ontem, ao ver a apresentação de um trabalho final de graduação de uma grande amiga socióloga e muito atenta às varias particularidades da vida, ouvi de uma das professoras da banca um comentário que vira e mexe ecoa na cabeça daqueles que por algum motivo, esquisito ou não, viajam nas palavras de pessoas que provavelmente já morreram há tempos e que foram escritas muito tempo antes de tais mortes (na maioria das vezes). “Não se pode desvincular o contexto social, cultural e político vigente da época e do âmbito que o autor se encontrava”. Isso é uma total verdade, mais verdade que isso talvez só que aquelas toalhas horríveis de alguma hospedaria chinfrim que encharcam e não enxugam nada. Sabem do que estou falando. Ela pode não aparecer sempre, mas quando aparece não te deixa dúvidas de que, sim, aquela toalha é muito merda e pior do que outras trocentas existentes. Por exemplo, Jack Kerouac em “Lonesome Traveler”, já sozinho, (e provavelmente algum tempo depois de “On The Road”) passa por infinitos lugares e esferas e conta, em suas longas prosas autobiográficas, seus conceitos, preconceitos, achismos, rotinas, verdades e suposições por onde passa. México, buracos avulsos dos EUA, Marrocos, Reino Unido e França. Em uma das oito “sessões” do livro, Kerouac conta bastante em “The Railroad Earth” boa parte de sua rotina como guarda-freios de São Francisco. Em uma dessas passagens, o bonachão, ao mostrar sua rotina de alimentação, evidenciando os preços que pagava, as economias que fazia e outras “cositas” comuns mais, reflete seus estereótipos mais incovenientes a pessoas não-brancas, por exemplo. Ao relatar que mesmo sendo um guarda-freios, preferia continuar se alimentando “porcamente” no tal restaurante da “Howard Street onde três ovos custavam 26 centavos, dois ovos custavam 21, com uma torrada (quase sem manteiga), café (quase sem café e açúcar racionado)”. Analisando e contando, o provável Sal Paradise comenta sobre o “chinês de rabicho dos velhos tempos cozinhando e amaldiçoando” os que não gostavam de sua comida e ofertas. E segue:
“[...] Os preços eram inacreditáveis, mas uma vez comi um ensopado de carne que foi absolutamente o pior ensopado que já comi, foi incrível, posso garantir - e como serviam aquilo muitas vezes pra mim, foi com a mais profunda mágoa que tentei explicar ao sujeito que ficava atrás do balcão o que eu queria, mas ele era uma filho da puta valentão, opa, ai-ai, acho até que era meio veado e tratava os bêbados desgraçados com a maior grosseria: “O que você está fazendo, acha que pode entrar aqui e se comportar desse jeito? Pelo amor de Deus, aja como um homem, coma ou caia fo-o-o-o-ra!”. - Sempre me perguntei o que um sujeito daqueles fazia em um lugar assim, mas poxa, bem que ele poderia ter alguma pena naquele coração de pedra por aqueles pobres-diabos, em toda a rua tinha restaurantes parecidos, frequentados exclusivamente por negros vagabundos, bêbados sem tostão, que encontravam 21 centavos que haviam sobrevivido às bebedeiras e entravam aos tropeções para o terceiro ou quarto prato de comida da semana, às vezes sequer tinham comido a semana inteira, e você podia vê-los na esquina vomitando um líquido branco, uns 2 litros de sauternes azedo da pior qualidade ou xerez branco doce, e não tinham nada sólido no estômago, muitos eram pernetas ou andavam com muletas e tinham curativos nos pés, do envenenamento simultâneo com nicotina e álcool [...]”
(KEROUAC, 2016, pp 57 e 58)
“Lonesome Traveler” foi publicado em 1960. É certo que o livro é um compilado de suas escritas ao longo de alguns anos de viagens, mas considerando a época, Jack Kerouac devia ter por volta dos seus 38 anos. Neste trecho do longa, o estadunidense “raiz” é explicitado. Por não atendê-lo da forma que ele queria, o bêbado por natureza Jack Kerouac já descreveu o rapaz que o atendia da forma mais estereotipada possível. Ora bolas, um “veado” grosseirão vai destratar essa legião incrível de vagabundos que somos nós bêbados? Pera lá, né. Em compensação, logo após ao descrever o público frequentador dos modestos restaurantes da Howard Street, classifica “os negros vagabundos, bêbados sem tostão” de forma tão depreciativa, como se Kerouac também não fosse um. Infelizmente, algo muito recorrente na literatura de nomes como William S. Burroughs, por exemplo. Um total subjugamento em relação a quem difere do padrão branco, machão, garanhão e “revolucionário”. Em quantos momentos, em quaisquer publicações de Jack, ele transmitiu a mesma ideia, sensação e estado dos mesmos que ele, “sem querer”, humilhou com poucas palavras? As impondo a um lugar menor, pois ele, viajado e conhecedor das melhores culturas do mundo, nunca se associaria a pessoas que…
“[...] certa vez, subindo a Third nas proximidades da Market, do outro lado da Breens, no início da 1952, quando eu morava em Russian Hill e ainda não tinha sacado bem o completo horror e humor da Third Street das ferrovias, um vagabundo, um vagabundozinho magro e doentio como Anton Abraham, estava caído de bruços na calçada com a muleta ao lado e uns velhos restos de jornal sob o corpo, e parecia morto. Olhei de perto para ver se ele estava respirando e ele não estava, outro homem olhou também junto comigo, e ambos achamos que ele estava morto, e pouco depois chegou um tira e concordou e chamou a ambulância, o pobrezinho pesava uns 25 quilos no fim das contas, nariz ranhento, duro como um bacalhau seco, mortinho da silva - ah eis o que tenho a contar - e era impossível deixar de notar que por ali havia inúmeros outros vagabundos mortos semimortos, vagabundos, vagabundos, vagabundos, mortos, mortos, vezes, vezes e mais vezes, todos mortos, vagabundos mortos para sempre sem nada, todos arruinados e liquidados - ali. - E era essa a clientela do restaurante Public Hair [...]”
(KEROUAC, 2016, pp 58)
Um dos ‘pernetas negros’ que ele havia mencionado antes possivelmente seria um desse tipo “doentio como Anton Abraham”. Assim como anteriormente mencionado, Hunter Thompson, apesar de sua admiração pelo trabalho e pela forma como romanceava e esclarecia suas vivências através das palavras, achava Kerouac um homem “burro”. Não dá para saber exatamente o porquê do pai do gonzo pensar isso do tal beatnik, mas algumas de suas últimas aparições públicas, em TV, por exemplo, retratam um caráter, no mínimo distante do que acompanhamos durante suas estadias em motéis de beiras de estradas, bares e ruas terrosas.
Tal como Kerouac, William S. Burroughs, tido resumidamente como um padrinho da geração beat (muito por ser uns oito anos mais velho que a maioria dos outros artistas, mas também por seu aspecto “parental” e de mestre que autores como Jack e Allen Ginsberg, grandes amigos do também escritor, tinham sobre ele), também tem algumas controvérsias em relação à sua vida e o que representa num geral para a contracultura norte-americana. Declaradamente homossexual, o Old Bull Lee de “On The Road” foi casado com Joan Vollmer.



Comentários