VIII - Espiral declinante
- Bernardo Mofe

- 17 de jun. de 2021
- 10 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2021
Janet Michelle Kerouac (ou somente Jan Kerouac) só veio a conhecer seu pai, Jack, aos dez anos de idade. Joan Haverty, sua mãe, se separou do escritor antes do nascimento da menina. Jack se recusou arduamente a reconhecer a paternidade da criança. Boatos dizem que sua mãe, a dona Gabrielle-Ange Lévesque, teve grande interferência nesse comportamento insistente do estradeiro. Segundo o biógrafo do autor, Gerald Nicosia, “a Gabrielle era uma católica muito devota, então quando Joan engravidou da Jan, Jack sugeriu que ela fizesse um aborto, pois não estava fazendo tanto dinheiro e por isso achava que não conseguiria sustentar a criança”. No entanto, Joan não queria o aborto, até porque eram ilegais em fevereiro de 1952, quando Jan nasceu. Gabrielle afirmava que ele nunca poderia abandonar uma mulher grávida. Então Jack usou o argumento de que a criança não era sua filha, assim apaziguando a situação com sua mãe e tendo um caminho livre para abandonar a mãe de sua filha. Já que Jack morreu antes que a matriarca, a mentira morreu com ele.

Gerald Nicosia, Jan Kerouac em maio de 1994 na NYU Beat Conference. Foto de Sylvia Nicosia.

Allen Ginsberg e Jan Kerouac a caminho do Grammy em um táxi em Nova Iorque, 1991. Foto de Gerald Nicosia.
Gerald a conheceu em 1978 enquanto pesquisava e procurava registros sobre Jack para sua biografia, “Memory Babe” de 1983. Aos 26 anos, já viajava pelas estradas mundanas há bastante tempo quando Nicosia a encontrou em Russian Hill, São Francisco, enquanto ela morava em algum lugar abandonado com alguém. O próprio chegou a dizer que desde o momento em que bateu os olhos nela pela primeira vez percebeu que ela não poderia ser filha de outra pessoa a não ser do tal autor de “On The Road”. Jack já estava morto há nove anos, porém “aquele cabelo preto e aqueles olhos azuis” não davam brecha para outra interpretação. Jan teve uma juventude difícil, morando em vários lugares sem algum específico para ficar, dependendo de 52 dólares por mês do pai - que só veio a pagar uma pensão para a mesma quando ela tinha 10 anos de idade e depois de um teste de paternidade comprovado - e bicos que conseguia; desde prostituição, a uma banda, The Whippets, que formou aos 12 anos com Bibbie Hansen, mãe do roqueiro folk alternativo Beck Hansen de “soy un perdedor, I’m a loser, baby, so why don’t you kill me”. A música mais conhecida do grupo de garotas é “I Want To Talk To You” de 1964, que era uma resposta para “I Want To Hold Your Hand” dos Beatles.
The Whippets - I Want To Talk To You
Beck - Loser Jan chegou a conhecer o pai. O viu duas vezes. Na primeira vez quando o teste de paternidade foi feito e a segunda quando o visitou em sua casa em Lowell, Massachusetts, pouco antes de sua morte, encontrando o mesmo no sofá bebendo Budweiser, vendo A Família Buscapé, sendo pouco capaz de olhar alguém nos olhos às nove da manhã. Há versões que dizem que ele teria a recomendado ir à Cidade do México para escrever um livro, enquanto outras versões do boato dizem que eles somente conversaram por telefone.
Perambulou pelos meios literários e convivências boêmias da vida quando chegou a conhecer alguns dos amigos de seu pai, como o próprio Ginsberg, o que frustrou bastante a mesma, pois todos conheciam muito seu pai e suas histórias. Muito mais do que ela poderia imaginar como ele poderia ser, além do que se via na mídia vigente. Até que começou a escrever e lançou seu primeiro livro em 1981, “Baby Driver”, uma autobiografia descompromissada sobre seus encantos e experiências com drogas, as estradas, seus relacionamentos com homens quaisquer e afins. Chegou a publicar um segundo, lançado em 1988, “Trainsong”, e vinha trabalhando já no terceiro, “Parrot Fever”, quando veio a falecer em 1996 em decorrência de uma retirada do baço. Ela já havia tido insuficiência renal há alguns anos e vinha fazendo diálise. Aos 44 anos, Jan Kerouac morreu três anos mais nova que seu pai. Em seus últimos anos de vida, encorajada por Nicosia e após a morte de sua avó, Gabrielle em 1973, ela vinha travando batalhas judiciais sobre os direitos das obras do pai que estavam com sua última esposa, Stella Sampas. Nicosia, que a ajudou durante este período, concordava que o testamento de Jack tentava apagar a ligação dele com sua filha, corroborando também a ideia de que o testamento era falsificado. “Tem uma exposição do Kerouac em Lowell que tem umas três salas inteiras sem nenhuma foto da Jan”, afirmou o biógrafo na época. “Parrot Fever” nunca foi terminado.
Em 24 de julho de 2009, um juiz do condado de Pinellas, na Flórida, decretou que o documento que garantia, segundo a vontade de Gabrielle, todos os direitos de Jack à família Sampa era falso.

Janet Michelle Kerouac, foto de autor desconhecido Chegando a passar algum tempo de sua adolescência em um hospital psiquiátrico, Jan teve um contato muito forte e impactante com o uso e abuso de drogas e álcool. Aos 15 anos, já estava no México, onde seu pai havia sido abandonado e roubado por Neal Cassady/Dean Moriarty durante uma febre complicada. Apesar de nunca terem tido nem um mínimo de contato que credibilizasse qualquer tipo de relação propriamente dita, ao ser perguntado pelo jornal britânico The Guardian se Jan teria se tornado uma escritora por conta do pai, Gerald Nicosia, responde que acredita que sim. “Eu acho que ela conseguia achar o pai dela no mundo exterior, então quando ele já tinha ido, o único lugar em que ela o poderia encontrar era dentro dela mesma. Acredito que de várias formas ela tentou se tornar o que ele foi, com toda a divagação e viagens sem dinheiro, o álcool, as drogas e a selvageria sexual. Acho que de alguma forma ela tentou achar seu pai se tornando ele”. Não convivi nem conheci Jan, muito menos Nicosia, muito menos Jack ou qualquer uma dessas pessoas que foram citadas até aqui (até porque não haveria a menor possibilidade disso), mas não acredito que Jan tenha “querido” por si mesma se “tornar” o que Jack ou Sal haviam sido. Ela simplesmente foi o que queria ser diante do que lhe foi oferecido em vida. Usando uma simetria estranha, talvez Jack tenha querido ter a experiência que sua filha teve ao fazer parte dum grupo musical e ter gravado num estúdio, ter assinado um contrato de gravadora e sua música tocada algumas vezes nas rádios como ele imaginava que deveria ser a vida dos negros jazzistas e “blueseiros” a la Charlie Parker. Curioso o fato de que, mesmo tão distantes por diversos motivos, meio que morreram pela mesma causa: o uso e o abuso. Alguns anos antes de sua morte, Jack Kerouac já havia se tornado o velho turrão que não imaginaríamos com certeza que seria, afinal, o mesmo, em “On The Road” principalmente, sempre aspirou pela rebeldia. Barry Miles, outro biógrafo do autor, responsável pela publicação “Jack Kerouac - The King of the Beats” menciona que, além da óbvia dependência química que ele travava e tentava batalhar (há controvérsias), a relação com sua mãe foi uma das razões pela qual o desastre emocional e geral do autor se intensificou com o passar dos anos. Ponderando até a possibilidade de ter havido um certo complexo de Édipo entre os dois, Miles comenta sobre a grande relutância de Gabrielle com todas as mulheres que Jack tentava apresentar à família e engatar um relacionamento, já que ela não aprovava nenhuma apesar de ter supostamente se rendido a Stella Sampas, muito por questões de saúde e já ser alguém que ela e o filho conheciam desde a infância dele, já prevendo o fim de sua linha vital. Edie Parker também já havia comentado sobre o caráter machista e mandão do escritor dentro de casa e como isso afastava as pessoas que acreditavam num outro lado romântico de Jack que aspiraria libertarianismo e uma certa vibe de “feministo”, o que não rolava, claro. Ao participar em 1968 do programa “Firing Line” do então comentarista político e famoso pensador do conservadorismo estadunidense da época, William F. Buckley (que nos anos precedentes, já havia defendido a permanência da segregação racial no sul dos Estados Unidos devido à “ausência de educação, condições financeiras e desenvolvimento cultural” da população negra em relação aos caucasianos em seu editorial “Why The South Must Prevail” (Porque o Sul deve Prevalecer) que inclusive defendia também o “direito” dos brancos de impôr seus “códigos morais” o tempo que fosse necessário para alcançar a tão conhecida igualdade racial), Kerouac fez sua última aparição pública e esteve ao lado de outros dois figurões (brancos, claro) para discutir o nascimento, a repercussão social e os motivos do então recente movimento hippie.
Num programa marcado por comentários extremamente estereotipados sobre uma “nova forma” de ver a vida e da juventude da época, o excerto abaixo reflete o pensamento social comum entre a grande parte da classe média norte-americana da época e suas pretensões e convicções sobre o “melhor que a América pode oferecer” aos jovens desvairados que, aparentemente, só queriam saber de usar todas as drogas alucinógenas possíveis e ficarem pelados por aí. Acompanhados pelo sociólogo Lewis Yablonski e o poeta músico Ed Sanders, o programa seguiu com indagações do apresentador Buckley aos participantes da conversa que em vários momentos foram interrompidos por um Kerouac extremamente bêbado e sem filtro, balbuciando dizeres muitas vezes inaudíveis. Um fiel e indubitável marco do quão reacionário Jack viria a ser com 46 anos (aparentemente, eram 67). O próprio chega a comentar com o apresentador sobre o fato de achar que a Guerra do Vietnã não era nada além de “um motivo arranjado entre os vietnamitas do sul e do norte para terem Jeeps em seu país” e que “os comunistas são os verdadeiros fascistas", ao mesmo tempo em que reforça seu catolicismo e apreço pela “ordem”. Puro suco de anos 60, né? Tanto lá quanto aqui neste país tropical que vos desgraça.
"Buckley, Kerouac, Sanders and Yablonski discuss the Hippies, 1968"
Kerouac morreu bebendo. Em St. Petersburg, Flórida, foi dado como morto por uma hemorragia interna, consequência de uma cirrose que já o acompanhava desde o início da década. Assim como Cassady, que bebeu, bebeu, bebeu e perambulou até ser encontrado em coma próximo a uma linha de trem próximo a El Paso, no México. Os dois velhos companheiros, admirados por tantos jovens ao longo dos anos e principalmente na época, com as sombras de James Dean, Marlon Brando e afins sempre rondando a onda estradeira e de rebeldia sem causa específica. Neal ainda, de certa forma, teve uma sobrevida enquanto já quase morto quando virou o motorista oficial do Further (2), o ônibus psicodélico viajante e incessante de Ken Kesey e os Merry Pranksters e seus chás alucinógenos e ácidos que abrigou celebridades como os Rolling Stones (antes do fatal festival de Altamont) e George Harrison, por exemplo. Tentaram encontrar Jack Kerouac, impulsionado por Neal, que há muito não via o amigo. Encontraram, mas ele não lhes deu muita atenção. Sentado, bebeu, bebeu, bebeu sem falar muito e quando falou, foi para resmungar. Dizem que arruinou a onda do LSD de alguém da trupe do ônibus maluco. Não é difícil aceitar que isso possa ter sido uma real possibilidade.
Mais do que ícones de uma geração emblemática e destacada também por conta de como a contracultura intensificou diálogos e debates ao longo das décadas seguintes não somente acerca da liberdade literária e de interpretações, mas também da área sexual livre e da ligação com o âmbito espiritual, não só Jack ou Sal, Neal ou Dean, Allen ou Carlo, LuAnne ou Marylou, Carolyn ou Camille, Joan Vollmer ou Jane, Bill ou Old Bull Lee como também Hunter Thompson ou Raoul Duke e Oscar Zeta ou Dr. Gonzo e outros tantos, citados ou não, esses personagens fictícios confundidos com suas atuais personas representavam não somente as aspirações que a sociedade juvenil desejava viver em um futuro próximo, como também as próprias mazelas que as criaram e as mantiveram de pé (seja por pouco tempo ou não). Retratos idênticos de personagens reais de nossas vidas vigentes, mesmo depois de quase 70 décadas. Conhecemos os garanhões metidos a intelectuais, conhecemos os tímidos brilhantemente artísticos, conhecemos as minas procurando por espaço, conhecemos as minas com espaço que abdicam de algo para manter-se estáveis e os homens restringidos a uma estética viril que compele a sociedade e seus ideias de sucesso e etc. Vivemos as discussões, a rebelião, a contradição e o conformismo com o que é apresentado, restando o acato a tais ideias sistemáticas e opressoras ou a abstração do que se diz ser o melhor e mais certo para o andamento de uma sociedade que nunca esteve perto de se alinhar em qualquer assunto que tenha sido tratado. O caos da pobreza e suas tramóias para manter-nos vivos apesar do sofrimento ou até mesmo da embriaguez inevitável de um fim de semana desempregado depois que se faz um mísero dinheiro por um bico, que qualquer um dos seus amigos poderia fazer no seu lugar, mas afinal de contas, quem esteve ali foi um só que pegou o trocado primeiro. As convicções hereditárias que não se concorda, mas quando se vê, está corroborando. Um resumo breve da loucura que foi os anos 40-60 não se restringe somente a este espaço específico do tempo da humanidade. Estamos mais próximos de 2040 do que imaginávamos há alguns e ainda convivemos com instituições poderosas ao ponto de tentar (e conseguir) domesticar pessoas, inferiorizar várias outras, determinar padrões e construir bases para o que eles esperam nunca ter fim. As gerações definham com o andar da carruagem lenta do tempo e, ao mesmo tempo que suprimem casualidades e distinções, esperam que tais anormais sobrevivam para seguir o que já está construído, seja tanto em métodos e comportamentos enraizados involuntariamente quanto o simples e natural desejo de se viver como se deve querer. Dicotomia em sua mais pura e simples definição: “modalidade de classificação em que cada uma das divisões e subdivisões contém apenas dois termos”. Autoritarismo versus rebelião, reacionarismos versus escavações, quadrados versus círculos, sedentarismo versus ativismos. Tudo isso sobre uma gigantesca estrada que sempre aparecerá para qualquer pessoa em qualquer circunstância. Qual é a sua estrada?
nota de rodapé: 2 - Further foi o nome de um ônibus comprado pelo escritor, comunicólogo e jornalista estadunidense Ken Kesey. Ao ter que retornar para Nova Iorque para o lançamento de mais um de seus livros, “Sometimes a Great Notion”, Kesey pensou em comprar um ônibus e, muito influenciado por “On The Road” de Jack Kerouac, viajar loucamente com outras pessoas para experimentar a contracultura. O motorista era ninguém menos do que Dean Moriarty. Parte das aventuras da trupe do ônibus podem ser vistas no filme “Magic Trip” (2011) de Alison Ellwood e Alex Gibney.



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