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VII - Degradação gradual

  • Foto do escritor: Bernardo Mofe
    Bernardo Mofe
  • 18 de jun. de 2021
  • 14 min de leitura

Atualizado: 16 de ago. de 2021

Joan Vollmer nasceu em 1923 em Loudonville, Nova Iorque. Segundo Brenda Knight, autora de “Women of the Beat Generation” de 1996, “Joan foi seminal para a criação da revolução Beat. Na verdade, o fogo que alimentou os motores beats iniciou com Vollmer como patrona e musa”. No início da década de 40, Joan mudou-se para a cidade de Nova Iorque e ingressou na Barnard College, uma universidade particular de artes liberais para mulheres, para cursar jornalismo. Foi durante este período que ela conheceu Edie Parker em um bar de Manhattan, rapidamente se filiaram e fincaram uma forte amizade que se estabeleceu em um apartamento na Upper West Side, o distrito do bairro de Manhattan se situa entre o famoso Central Park e o Rio Hudson. Este apartamento viria a ser o berço do que conhecemos hoje como geração beat. “O apartamento delas era o núcleo que atraiu vários dos personagens que tiveram papéis vitais na formação dos beats. Brilhante e muito bem versada em filosofia e literatura, Joan era a pedra que amolou o intelecto dos principais autores do movimento - Allen, Jack e Bill”, escreveu Knight.

Joan Vollmer fotografada por Allen Ginsberg em 1944. Pouco tempo após ingressar na universidade, Joan se casou com um estudante de direito, Paul Adams, que havia sido convocado para lutar na Segunda Guerra Mundial. Enquanto ele estava lá para os lados bélicos, em 1944, Joan deu à luz a sua primeira filha, Julie. Quando retornou da guerra, eles se divorciaram, pois o mesmo alegou ter se assustado com o uso de drogas dela e de seus novos amigos. Um ano após, em 45, ela começou a se envolver com quem marcaria sua vida para sempre: William S. Burroughs. O escritor e pintor, também um dos grandes participantes dos emaranhados que aconteciam e borbulhavam no apartamento de Vollmer e Parker, foi apresentado a sua então esposa por Ginsberg, que teria feito um “telefone sem fio” entre os dois. Foi em 1945 também que Jack Kerouac apresentou a benzedrina à “matriarca” beat, vício esse que o acompanhou pelo resto de sua vida.

Assim como Joan, Burroughs também sempre esteve em conflito com a lei. Tanto pela sua homossexualidade (voltaremos neste tópico mais a frente), quanto seu enorme vício em drogas ou por ser um traficante, Bill tinha um apreço pela vulgaridade, um carinho pela ilegalidade. Talvez por isso, os dois tenham passado boa parte de sua conturbada relação correndo de lá pra cá, mudando de estados e estados. Bill já havia passado por Marrocos, Paris e Berlim quando o casal, depois de diversos problemas judiciais (como atentado ao pudor por serem pegos transando dentro de um carro ou por William ter sido condenado por falsificação fiscal e ter sido indiciado a retornar à casa de seus pais no Missouri, para que eles o tratassem; o que não aconteceu com Joan, que chegou a ficar internada durante um tempo no hospital Bellevue em Nova Iorque, em decorrência de seu excessivo uso de anfetaminas, tendo sido resgatada pelo companheiro logo após cumprir a pena quando retornou a NYC), foi morar no Texas tentar a vida plantando maconha. Eles tiveram um filho, William Burroughs Jr., em 1947.

Os pombinhos eram animados demais para a época e colecionaram processos por uso e porte de substâncias ilícitas, tráfico e algumas “lewd behavior charges” (acusações de comportamento obsceno). Foram para New Waverly, Texas, e de lá rumaram para Nova Orleans. Até que Burroughs é preso novamente por porte de heroína. Na investigação, a polícia fez busca e apreensão na casa de Vollmer. Lá encontraram algumas cartas para Allen Ginsberg, que davam a entender que os dois haviam enviado maconha para algo ou para alguém. A sentença veio. Dois a cinco anos na Angola State Prison, em Louisiana. Quando solto, voou para o México. Joan o acompanhou e foram em busca do lugar que sintetizaria a relação dos dois e traria respostas sociológicas muito impactantes sobre o impacto beat e o impulso de uma geração que antes de se achar, já estava perdida há décadas. Apesar da aura de sim, amarem o amor livre, as drogas e suas viagens e todos os sentimentos hedonistas perpetuados através tanto da literatura quanto da música ou o que seja, não, eles não eram melhores, como poderiam pensar, nem tinham melhores pensamentos acerca do que já se era sofrido por outros há tempos. Inferiorizaram mulheres, desprezaram etnias e tomaram conta do que acharam que era deles por direito. Alguns anos mais tarde teríamos o show de graça dos Rolling Stones na cidade de Altamont em 1969 que culminou no assassinato de Meredith Hunter, morto a chutes e facadas por um Hell Angel, que cobriu a segurança do evento junto aos Stones por uma caixa de cerveja, mas isso já é outra história... retornemos ao “mérrico”, shall we?

Joan Vollmer (Burroughs) foi morta aos 28 anos por Burroughs em um jogo, “William Tell”, durante uma bebedeira usual com os amigos a fim de mostrar sua boa pontaria e nova pistola. Ele deveria acertar um tiro de seu revólver no copo de gin acima de sua cabeça. Acertou a testa, em sua casa, enquanto moravam na Cidade do México. Há boatos que o filho, William Burroughs Jr., teria visto a cena. Uma das coisas que William disse à polícia foi que, ao acertar o tiro, acreditou até que a esposa estivesse “fingindo” a situação. O relatório policial ainda menciona que ele “estava muito bêbado para se dar conta de que acertou a testa da vítima”. Burroughs ficou preso durante 13 dias. A partir das diversas tentativas de suborno, o autor foi condenado à revelia pelas autoridades mexicanas, mas ele nunca foi julgado ou condenado pela morte de Joan.

(capa do jornal estadunidense "Times Union" relatando a morte de Vollmer) Burroughs mudou seu testemunho algumas vezes, por conta própria ou por intermédio de seus representantes judiciais. “Foi puramente acidental. Eu não coloquei o copo na cabeça dela. Se ela fez, foi uma piada e eu certamente não tive a intenção de atirar nela”, teria dito o autor em sua defesa logo após a morte de Vollmer. Pouco tempo depois, disse que teria deixado a arma cair no chão e por isso ela teria atirado acidentalmente. De acordo com seu biógrafo, o escritor norte-americano James Grauerholz, duas testemunhas concordaram em depor a favor da ideia de que a arma teria efetuado o disparo repentinamente enquanto o bêbado autor checava para ver se a pistola estava carregada. Os especialistas em balística foram subornados para dar força aos testemunhos. Com os contínuos adiamentos do julgamento de William Burroughs, ele teria começado a escrever o que viria a ser o seu maior sucesso literário: “Queer”. O romance, que foi escrito entre 1951 a 1953, só foi realmente publicado em 1985. Houve muita dificuldade em encontrar editoras que se interessassem pela publicação do livro, muito pelo caráter do autor, que era (além de alguém que respondia por um crime hediondo) um assíduo usuário de drogas, isto retratado fortemente em suas escritas, mas também pela expliciticidade das cenas homoafetivas de sexo. Publicado em 2004 pela Villard Books, o livro “Counterculture Through the Ages: From Abraham Lincoln to Acid House”, de Ken Goffman e Dan Joy, comenta a resistência sistemática:


“O livro não conseguia encontrar um editor. Heroína era um dos motivos, mas a última coisa que heterossexuais nos anos 1950 queriam fazer era ler descrições explícitas de sexo gay, e a última coisa que homossexuais queriam à época era serem vistos com um livro intitulado Queer.”

A relação entre Vollmer e Burroughs era vista com certa estranheza já por quem os rodeava há algum tempo. Tanto que Allen Ginsberg, no longa “Burroughs: The Movie” (1983), relata que sua amiga parecia estar com um comportamento mais suicida nas semanas próximas à sua morte, o que, segundo ele, a teria feito aceitar voluntariamente o “jogo” de seu então marido. Tal relato do poeta beat, no entanto, não nos dá muitas respostas mesmo com a grande aproximação que os beats tinham com a jovem, visto que (não só eles) fizeram de tudo para proteger Burroughs da pena pelo crime cometido. O casamento tinha uns certos “quês” a mais também. William se considerava homossexual, o que acabou interferindo bastante na vida sexual do casal que, mesmo ainda existente, conturbava os nervos de Joan já que seu marido nunca estaria satisfeito somente com ela e se relacionava abertamente também com outros homens. A libido já não era das maiores, convenhamos. O consumo exagerado de drogas, como a heroína, preocupava Vollmer em relação ao marido, além da mesma achar que estes seus hábitos o tornavam “entediante” e “chato de se conviver”, fora o tesão degradante. A partir disso, Joan teria começado a beber ainda mais e se empenhado no uso constante da benzedrina. O fim já sabemos.

Em uma de suas divagações sobre a política estadunidense sobre sexualidades, Burroughs afirmou que: “não existe isso de comportamento criminoso, apenas comportamentos declarados ilegais por uma sociedade particular”. No entanto, se contradiz quando “ao identificar-se com o termo queer, entendia-se como um homossexual masculinizado e ojerizava ser identificado como afeminado”, explica Renata Gomes no artigo Queer Beats: representações de gênero e sexualidade na literatura beat, publicado em 2018. Os beats em geral falavam muito sobre as relações amorosas livres em suas publicações e falas, mas na realidade, boa parte dos autores adotavam um discurso normativo. Em entrevista, o “poeta metálico” Carl Solomon, também beat, chegou a comentar que:


“uma vez eu deixei ele (Burroughs) muito bravo porque quando ele submeteu (seu romance) “Queer”, eu sugeri que ele mudasse o título para “Fag” (bicha). Então Burroughs escreveu para o Allen (Ginsberg) dizendo que ele iria cortar as minhas bolas, já que ele fazia a distinção entre as palavras “fag” como alguém afeminado e “queer” como um tipo masculino de homossexual”.

Essa intolerância não só reafirma estereótipos acerca da diversidade sexual individual de cada um, mas também determina que as atitudes que não sejam “vinculadas” ao gênero da pessoa não seriam corretas ou apropriadas. Lembrando que era comum os beats terem ligações religiosas, como o católico Kerouac ou o próprio Burroughs, que tempos depois de ter matado Joan Vollmer, comentou que “o espírito feio” o dominou ao ponto de cometer tal crime. Ai ai ai ai ai, esses pecadores. Tão pobrezinhos. Kerouac este que também teve relacionamentos com outros homens, mas por não se identificar com o termo queer, segundo Renata Gonçalves, dizia-se heterossexual, o que obviamente não o comprometeu em nada, afinal seu próprio molde de homem branco, de classe média e garanhão o garantiria algumas regalias sociais (sabemos quais).


Dos três principais escritores beats, apenas Kerouac identificava-se como heterossexual. ‘Eu nunca fui, nem quis ser, homossexual’, ele escreveu em protesto para um texto crítico sobre os beats. (...) Ele claramente queria o comportamento [de homossexuais], mas não a identidade”.

Tais discussões e abordagens acerca destes temas ainda nos compele a indagar sobre a significância das mulheres que ali também estavam reunidas quando tudo o que se conhece agora por cultura beat se iniciou. Desde a amizade entre Edie Parker e Joan Vollmer e seu apartamento em Nova Iorque, reduto beatnik, a Joyce Johnson, Hettie Jones, Carolyn Cassady, mas também Elise Cowen, Diane Di Prima e a LuAnne Henderson, entre outras. Fala-se muito sobre o que Dean faria ou o que ele não aprovaria, em vários momentos de “On The Road”, por exemplo, quando sozinho, Sal se questiona sobre por onde o garanhão estacionador de carros poderia estar e, principalmente, fazendo o quê com quem. O reflexo de Dean durante o livro nos permite pensar a imagem de alguém com níveis de egolatria acima da média e não era de todo empático sempre. Quando Sal ficou doente no México, quem o abandonou roubando seu dinheiro foi Dean, que partiu em busca de mais uma das noites parecidas com a que ele morreu. Este cara, sempre foi sobre este cara e seus amiguinhos. Mas poderia ter sido sobre Marylou, a própria LuAnne Henderson, que teve sua versão das loucas e fantasiosas viagens do trio “Na Estrada” relatada ao poeta e jornalista Gerald Nicosia em 1978, o que viria a ser publicado somente em 2011 com “One and Only: The Untold Story of “On The Road”.

LuAnne Henderson Foto de autor desconhecido. Ao contrário do que muitos podem pensar (e provavelmente pensam) ao ler as crônicas beats de Kerouac, Marylou não era uma bonequinha que seguia os dois candangos por aí afora por mera submissão ou dependência emocional ou algo do gênero, que descaracteriza o ímpeto da própria LuAnne, que sim, amava as loucuras dos dois amigos, mas principalmente amava a estrada e o que ela poderia lhe trazer. Ela obviamente já não seguia, desde muito nova, o estereótipo de garota comportada, recatada e do lar. Ela se maravilhou com as estradas, com as noites dormindo fora no carro, se maravilhou com a própria liberdade e teve suas próprias viagens internas acerca do que se via e vivia. Apesar de sim, ter se encantado com os maneirismos e o jeito de “Neal Moriarty” (como a própria diz em um de seus relatos a Nicosia, “Eu adorava o jeito dele. Eu estava sempre pronta para partir com ele para uma nova viagem") e também do próprio “Jack Paradise”, ela afirma claramente que passou longe de ser um fácil joguete que ficava para lá e pra cá, aceitando e obedecendo ordens ou sugestões que somente os garanhões haviam de querer. Não era a “persona piriguete” que foi ressaltada por Carolyn Cassady (a outra ex-mulher de Neal) em seu livro “Heart Beat: My Life with Jack and Neal” (1982). LuAnne ressalta que não foi manipulada por ninguém, foi dona de seu próprio nariz durante toda a jornada e não perdeu nada da vida - talvez um romance com o próprio Kerouac, com quem também teve um envolvimento, mas enfim -, ela sempre esteve lá porque quis e ponto final. É curioso pensar que mesmo LuAnne sendo Marylou em carne e osso, tendo participado de boa parte da jornada (e do livro) e visto tudo o que viu e viveu não somente com Cassady e Kerouac, mas também com Joan Vollmer, com Burroughs, com Ginsberg, com Lucien Carr, não teve a mesma importância levada em consideração durante as longas décadas que se passaram até então. “One and Only: The Untold Story of On The Road” (assim como “Minor Characters” (1983) e “Memoirs of a Beatnik” (1969), de Joyce Johnson e Diane Di Prima, respectivamente) viabiliza uma nova configuração do papel das mulheres no movimento beat, mostrando quem também merece ser ouvido - por justiça e por méritos. Infelizmente, não foram todas as mulheres que pertenceram ao movimento e ao estilo beat, tanto na literatura, na escrita, nas influências ou até mesmo no estilo de vida, que puderam ter suas vozes ampliadas para além do que Jack teria escrito ou deixado de escrever.

Diane Di Prima. Pedaço da foto de contracapa da quarta edição de sua publicação "Revolutionary Letters"

Joyce Johnson e o fotógrafo Robert Frank. Foto de Robert Frank. Como o próprio título da publicação de Joyce Johnson, as mulheres tinham, na melhor das hipóteses, papel secundário no tal antro beat. O “clube do bolinha” não permitia, por algum motivo. Desta forma, qualquer mulher que os acompanhassem eram associadas às supostas manipulações libertárias e profanas, loucuras desvairadas e coisas do gênero, tendo suas imagens socialmente vinculadas a damas frágeis e desprotegidas ou então meros objetos sexuais, prostitutas precisando de salvação dos tais “heróis” progressistas. Mas não, (muito) longe (muito mesmo) disso. Em um trecho de “Minor Characters”, Johnson diz: I loved the slums, my slums, the sweet slums of Bohemia and beatnikdom, where sunflowers and morning glories would bloom on fire escapes in the summer and old ladies weighed down by breasts leaned on goosedown pillows in windows, self-appointed guardians of the street, and Tomkins Square with its onion-topped church had the greyness of photos of Moscow. Who would not wish to be a scuffler on Second Avenue? I bought seven- cent bagels and ten-cent half- sour pickles and sat up till dawn in Rappaport's, where they gave you a whole basket of rolls free, drinking coffee with a jazz trombonist from St. Louis and a poet just arrived from Chicago”. O cheiro das vielas, o carmelo das indiferenças, os suores corporais manchando as roupas com o amarelar do tempo. A apreciação da música popular, os graves dos trombones, os cafés, a poesia, as ruas e asfaltos. O amor, a beleza, o afeto e suas raízes. Está tudo ali, nesse trecho. Beat. Feminino.

Enquanto Diane Di Prima imprimia outros ares ao erotismo (ares esses inclusive muito destacados e ampliados pelos agentes da editora que a publicou primeiramente; o intuito era “pornograficar” mais ainda o conteúdo da publicação visando atrair um público maior), como em seu “Memoirs of a Beatnik” antes muito impulsionado pelos lados de Ginsberg e Burroughs com seus desejos implacáveis e até então “impublicáveis”, outras vertentes, já vivas e pulsantes, também passaram a ter um maior destaque no que era conhecido como beat. Elise Cowen foi uma jovem poetisa muito relacionada ao movimento beat da época por ter sido além de uma outra estudante da Barnard College (instituição onde Joan, Edie e Joyce também estudaram), muito amiga e admirada por nomes ilustres da época como Allen Ginsberg, Joyce Johnson e Gregory Corso. Normalmente, quando ouve-se falar sobre Elise Nada Cowen, a nova-iorquina nascida em Manhattan exaltada pelos amigos e contemporâneos como alguém extremamente inteligente e a frente de seu tempo, lemos coisas sobre seu suicídio aos 27 anos ou em relação ao relacionamento amoroso que teve com Ginsberg, atrelando-a a uma simples e pacata “experiência heterossexual” de Allen, o que além de errôneo, simplista e objetificador, exclui tudo o que Elise queria que fosse reconhecido em sua existência. No máximo, ouve-se sobre ela ter sido a pessoa que datilografou o famoso poema “Kaddish” (de Ginsberg). Joyce Johnson, que era uma amiga muito próxima de Cowen, escreveu: “Pensei muitas vezes que Elise nasceu cedo demais. Num tempo com mais tolerância para os comportamentos não-normalistas femininos, ela talvez até teria sobrevivido. Ela não conseguia aceitar quem era. Ela nunca conseguiria colocar uma máscara como eu fiz e ficar entrando e saindo do mundo normativo”.

Elise Cowen e Allen Ginsberg em algum momento da história da humanidade. Elise, que adotava o Nada com afinco para referir-se a si mesma (Elise Nada Cowen - Nothing and Nothingness), lia muito e escrevia muitas vezes em segredo. Depois de sua morte, muitos de seus escritos e trabalhos literários foram destruídos, queimados por seus familiares que acreditavam em tudo aquilo ser algo “nojento”. Segundo Johnson, ela estava muito à frente da marginalidade que os próprios beats estavam acostumados. Apesar dela escrever sobre assuntos similares aos poetas e escritores mais famigerados do gênero, como espiritualidade, uso de drogas e sexualidades explícitas, uma mulher queer de uma família judia de Nova Iorque que tentava a todo preço ser tão respeitada quanto as outras famílias brancas da vizinhança tinha um peso maior. Muito por isso, seus trabalhos chegaram muito perto de não serem publicados. Isso só chegou a ser possível porque alguns de seus amigos se empenharam muito a fim de deixar o trabalho de Elise disponível e vivo mesmo após sua morte. A primeira publicação de algo relacionado às escritas de Cowen foram postos a público apenas em 2012 com o nome “Elise Cowen: Poems and Fragments”. Leo Skir, um de seus amigos da Barnard, no momento de sua morte tinha acesso a cerca de 84 poemas da poeta e disponibilizou alguns para algumas revistas literárias da época dos anos 60, tais como o City Lights Journal, o Fuck You, The Ladder e A Magazine of the Arts. Uma parte de sua biografia e outros poemas foram incluídos no “Women of the Beat Generation: Writers, Artists and Muses at the Heart of a Revolution” de 1996. A skin full of screams

I think “Bludgeon” “Roselle under the bludgeon” Red Queen of back-of-the-office Who stares into me Roselle de Bono Then For Roselle? For me? A confusion of tears over the Royal typewriter Nutritious Roselle(COWEN, Elise) “The aroma of Mr. Rochesters cigars among the flowers Bursting through I am trying to choke you Delicate thought Posed Frankenstein of delicate grace posed by my fear And you Graciously Take me by the throat” (COWEN, Elise) O flerte com a morte sempre pareceu inevitável quando lemos hoje seus escritos com mais de 50 anos de idade e entendemos que o mundo de hoje, apesar de ainda horrível e cheio de mistérios sobre se tais situações mudarão ou não, é completamente diferente e melhor do que era antes, em várias das áreas tratadas pelos beats, inclusive as negligenciadas e corroboradas pelos mesmos. Ponho-me a pensar e divagar sobre como um jovem rapaz negro brasileiro periférico lê sobre todas essas mulheres que sofreram o que sofreram por simplesmente quererem ser o que eram, sem grandes problemas, enquanto as utiliza de referência para uma reportagem que me dê um mínimo de sensação de credibilidade profissional e artística (por que não?) quase 70 anos depois? Alguns dos questionamentos que acredito terem emaranhado vossas cabeças, passaram totalmente pela cabeça de quem vos escreve. Nunca saíram, inclusive, nem sairão. Alguns destes questionamentos que foram feitos em mais um dos tributos feitos a um dos homens-mor dos beats, Allen Ginsberg, em 1994 feito pelo Naropa Institute e que foi registrado pelo poeta Stephen Scobie. “Uma mulher da plateia pergunta: “Por que tem tão poucas mulheres na programação da semana? Por que tinha tão poucas mulheres entre os escritores Beat?” e o [Gregory] Corso, ficando de repente completamente sério, se inclina para frente e diz: “Tinham mulheres sim, eu as conheci, suas famílias puseram elas em hospícios, foram parar no eletrochoque. Nos anos 50, se você fosse homem, dava para ser rebelde, mas se fosse mulher, a família te interditava. Teve casos, pessoas que eu conheci, e alguém algum dia vai escrever sobre elas”. Gregory Corso foi um destes rebeldes, já que, ao ser abandonado por sua mãe logo com um ano de idade e “resgatado” por seu pai num hospital de Nova Iorque, viveu sua infância e adolescência vivendo e fugindo de internatos, tanto por alguém o tê-lo colocado lá quanto por ter feito alguma merda e ter parado lá. Greg, nascido Nunzio, Corso teve ao menos duas condenações antes dos 18 anos por roubo e passou a se interessar pela literatura na “Tombs”, uma prisão municipal nova iorquina. Depois de liberado, conheceu quem? Allen Ginsberg que, por conveniências de gostos e apreços em comum, o apresentou para o antro que falamos tanto por aqui. O que Corso disse em 1994 tem grande valor por desmistificar a ideia de que aquelas mulheres teriam aspirações/vivências diferentes das dos tais caras. Não. Foi acessibilidade. Que Elise, por exemplo, teve, mas por conta própria, o que não foi suficiente até certo tempo. Acessibilidade essa que foi negada também a Janet Michelle.

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