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V - Boemia na cultura

  • Foto do escritor: Bernardo Mofe
    Bernardo Mofe
  • 20 de jun. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 16 de ago. de 2021

Entre o gonzo e o beat, além das semelhanças literárias e vocabulares, há o consumo excessivo de drogas e outros alucinógenos quaisquer como hábito. Pelo menos entre os dois autores que referenciam essa reportagem.

Jack Kerouac com seus goles alcóolicos intermináveis e benzedrinas aonde fosse possível consumir e Hunter Thompson com seus também intermináveis goles absurdos, ácidos, pós e mescalinas. Podemos cogitar que um aspecto existencial perseguia os donos dessas personalidades escritoras, mas também não se pode negar que de certa forma, além de ser uma possível válvula de escape, todas essas substâncias inspiravam-os para o acesso a algo que só eles poderiam saber dizer como os melhorava artisticamente (ou jornalisticamente, "choose one").

A influência da boemia na cultura popular é inegável. O que cada um vai usar pra ficar de tal forma não é o ponto, até porque são inimagináveis as possibilidades de uso de qualquer coisa. No entanto, a cultura marginal reflete não somente os sofrimentos, desejos e aspirações de uma parte da sociedade que se vê diminuída. Visto que artistas mais "playba" não têm tanto impacto social e até artístico no âmbito popular. Um Los Hermanos obviamente vai tocar no Maracanã, no sei lá o que hall da vida aí, mas não terá nem de perto a energia e as camadas que o samba de Zumbi em Padre Miguel tem, por exemplo.

Porque não é só a música, não são só as letras. São o acesso, as pessoas ao redor, o ambiente familiar e comum, as crianças correndo e gritando pra lá e pra cá enquanto os possíveis pais delas acenam de longe com os copos de cerveja levantados à meia altura, são os cachorros, os gatos, as fumaças gordurosas das carnes esturricadas num carvão que demorou a acender por conta da garoa de verão que amanheceu na zona oeste carioca. Claro que as experiências norte-americanas das décadas 40-70 de Kerouac e Thompson são diferentes também nas peculiaridades das vivências cariocas, ainda mais das dos subúrbios. Mas também hão de ter similaridades, claro que terão. Não lembro exatamente de onde eu ouvi/li isso, mas alguém me disse uma vez que 'vagabundos beberrões e andarilhos da noite são os mesmos em qualquer lugar do globo". Bom, nunca saí desse país tropical amaldiçoado por Deus, mas algo me diz que isso é verdade. De Bangu ao Rio Grande do Norte, os mesmos corpos jogados sobre cadeiras levantando coisas e derrubando coisas, inclusive a si mesmos. O apelo musical, as risadas e danças espontâneas sem coordenação motora alguma.

Ambos autores percorriam suas estradas de vida e as asfaltadas a fim de descobrir e admirar outras realidades diferentes da onde vieram. Seja a busca pelo sonho americano como em "Medo e Delírio", que no fim acabou sendo a jornada selvagem em direção ao coração desse sonho, ou simplesmente pela liberdade de querer ir para onde der na telha que é o melhor lugar para tal momento como em "On The Road". Ambos tinham seus objetivos iniciais. Um queria cobrir a suposta matéria perfeita de uma competição automobilística e o outro buscava inspiração para um novo romance que pretendia escrever. Ambos descobriram as maravilhas da estrada, os pesares, erros e perdas dela e as alucinações que causam. Para no final de tudo, sentir falta do que se fez por pura e simples vontade de se divertir por aí com quem se gosta de estar ao lado.

As poesias da rua não precisam de palavras nem de melodias para a sua compreensão, mas são inevitáveis ao longo do caminho. Elas são sentidas e desde que são sentidas, estão para o mundo todo. Suas expressões e ludismos. Todas são o que são por serem feitas e compartilhadas entre todos esses ditos vagabundos. Vagabundos estes que fizeram o que fizeram e fazem o que fazem porque se autorizaram a fazer.


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